Os filhos de Procusto

Procusto, na mitologia grega, tinha uma cama de ferro, para a qual convidava todos os viajantes a se deitarem. Se os hóspedes fossem muito altos, ele amputava o excesso de comprimento para ajustá-los à cama, e os que tinham pequena estatura eram esticados até atingirem o comprimento adequado. Uma vítima nunca se ajustava exatamente ao tamanho da cama porque Procusto, secretamente, tinha duas camas de tamanhos diferentes. Continuou seu reinado de terror até que foi capturado pelo herói ateniense Teseu que, em sua última aventura, prendeu Procusto em sua própria cama e cortou sua cabeça e seus pés.

A metáfora é perfeita para capturar essa mentalidade utópica de quem quer adaptar a realidade às suas fantasias, e não o contrário. Mentes obtusas criam suas ilusões abstratas no conforto de suas casas ou escritórios, e passam a acreditar que o “novo mundo” é mesmo possível, com total desprezo pelo mundo real. Experimento atrás de experimento, os socialistas tentaram moldar os indivíduos até criar o “novo homem”. O resultado foi sempre o mesmo: terror, escravidão e miséria, como na Venezuela. Mas esses filhos de Procusto não desistem nunca: se ao menos a cabeça for serrada um pouco mais abaixo, e os pés forem esticados um tantinho mais…

A humilhante derrota da esquerda nas eleições municipais, especialmente no caso da “nova esquerda” representada por Freixo, demonstra como a ideologia dessa turma fica acima dos fatos. O tal povo, que essa gente diz defender, não quis saber do socialismo, ópio dos “intelectuais”, artistas e “estudantes” burgueses. Não quer nada com a pauta “progressista” de aborto, libertinagem e drogas. O povo quer emprego, saúde, segurança, saneamento e transporte. Mas os “filósofos de gabinete” se recusam a ter mais humildade e, de fato, escutar a voz das ruas. Esses pobres são uns ingratos alienados, pensam. Se ao menos fosse possível forçá-los a serem livres… É uma mentalidade tacanha, arrogante e autoritária, típica do esquerdismo tupiniquim. O utópico é capaz de matar o homem de carne e osso para adequá-lo aos seus anseios infantis. Raymond Aron resumiu com perfeição a diferença dessa postura para a do liberalismo:

“O liberal é humilde. Reconhece que o mundo e a vida são complicados. A única coisa de que tem certeza é que a incerteza requer a liberdade, para que a verdade seja descoberta por um processo de concorrência e debate que não tem fim. O socialista, por sua vez, acha que a vida e o mundo são facilmente compreensíveis; sabe de tudo e quer impor a estreiteza de sua experiência – ou seja, sua ignorância e arrogância – aos seus concidadãos”.

Os novos Procustos se deram mal também: tiveram suas cabeças cortadas, pelas urnas, pelo povo!

Rodrigo Constantino

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

CAPTCHA image
*