Papa: Igreja deveria buscar perdão dos gays

Francisco defendeu que o mesmo seja feito com outras minorias marginalizadas

-CIDADE DO VATICANO- Depois de uma visita de três dias à Armênia, em que irritou o governo turco ao usar a palavra “genocídio” para se referir ao massacre de mais de um milhão de armênios pelo Império Otomano durante a Primeira Guerra Mundial, o Papa voltou a fazer uma declaração de peso, desta vez referindo-se aos homossexuais. Francisco afirmou ontem que os cristãos e a Igreja Católica deveriam buscar o perdão dos gays pela maneira como os têm tratado. E estendeu o comentário a outras minorias que, de uma forma ou de outra, foram marginalizadas pelos católicos.

— Eu acho que a Igreja não deveria apenas se desculpar com um gay que tenha ofendido. Acho que ela tem que se desculpar também com os pobres, com as mulheres que explorou, com as crianças que foram exploradas no trabalho forçado. A Igreja tem que se desculpar por ter abençoado tantas armas — respondeu Francisco, que relembrou os ensinamentos da Igreja sobre os gays de que tendências homossexuais não são um pecado, mas sim os atos. — Homossexuais não devem ser discriminados. Eles devem ser respeitados, acompanhados pastoralmente.

A declaração foi feita a bordo do avião papal durante o voo que levava o Pontífice de volta ao Vaticano após a visita à Armênia. Durante a cerca de uma hora de conversa com jornalistas, que já virou uma das marcas de suas viagens, Francisco foi questionado por um repórter se, à luz do massacre que deixou 49 mortos numa boate gay de Orlando, nos EUA, duas semanas atrás, ele concordava com os comentários recentes do cardeal alemão Reinhard Marx de que a Igreja deveria se desculpar com os homossexuais. Arcebispo de Munique e Freising, Marx faz parte do conselho de nove cardeais escolhidos por Francisco para aconselhá-lo. Na semana passada, o cardeal afirmou, durante palestra no Trinity College, em Dublin, na Irlanda, que “a história dos homossexuais nas nossas sociedades é muito ruim porque fizemos muito para marginalizá-los.”

O Papa continuou sua resposta, afirmando que os cristãos deveriam pedir perdão, e não apenas desculpar-se:

— Nós cristãos temos que nos desculpar por muitas coisas, não só por isso. Mas temos que pedir perdão, não apenas nos desculpar. Perdão! Deus, essa é uma palavra da qual nos esquecemos muito — disse Francisco.

Durante a conversa com jornalistas no avião papal, Francisco cunhou uma nova versão do discurso feito em sua primeira viagem internacional, em 2013, quando, também referindo-se aos gays, questionou “quem sou eu para julgar?”, num pronunciamento considerado liberal para um Papa.

— A questão é: se uma pessoa tem essa condição, se tem boa vontade, e se procura por Deus, quem somos nós para julgá-la? — perguntou na ocasião. Ainda se referindo aos homossexuais, o Papa afirmou ontem existirem “tradições em certos países, em certas culturas, que têm uma mentalidade diferente sobre essa questão” e que há “demonstrações que são muito ofensivas para alguns”, mas sugeriu que nada disso deve servir de base para a discriminação ou a marginalização dos homossexuais.

Declarações como a de ontem fizeram com que integrantes da comunidade gay elogiassem a postura de Francisco, por considerá-lo um Pontífice mais liberal, apesar do documento resultante do Sínodo da Família, realizado em 2015, ter desapontado a muitos por não mencionar as novas formações familiares. A declaração do Papa acontece em meio as celebrações pelo orgulho LGBT, realizadas em diversas cidades do mundo durante o fim de semana.

Já os setores ultraconservadores da Igreja têm criticado os comentários do Papa sobre o homossexualismo por considerá-los ambíguos sobre a moralidade sexual exigida pelo catolicismo. A postura de Francisco levantou especulações sobre se o descontentamento desses grupos aumentaria a influência do papa emérito Bento XVI, reconhecidamente conservador, no Vaticano. Ainda durante o voo, Francisco não se esquivou das perguntas sobre o tema e, em tom de brincadeira, afirmou ter ouvido que, quando um integrante da Igreja vai a Bento XVI para reclamar de seu comportamento liberal, o “Papa emérito o manda embora”.

— Há apenas um Papa — afirmou, agradecendo a Bento XVI por “me proteger com suas orações.”

O Globo

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