Para muitos noruegueses, fantasmas preenchem uma lacuna

Crença ficou tão forte que até mesmo a Igreja Luterana adotou a ‘liturgia fantasma’

MOSS, Noruega – Como muitos europeus, Marianne Haaland Bogdanoff, que gerencia uma agência de viagens nesta cidade do sul da Noruega, não vai à igreja, exceto talvez no Natal, e tem dúvidas quanto à existência de Deus.

Mas quando “coisas estranhas” começaram a acontecer na agência – avarias inexplicáveis nos computadores, cheiros e barulhos estranhos e a equipe constantemente se queixando de dores de cabeça –, ela aos poucos foi pondo de lado seu profundo ceticismo sobre a vida no além. Depois que peritos de computador, eletricistas e um encanador não conseguiram encontrar a causa dos problemas do escritório, ela foi buscar ajuda com uma vidente que alegava ter poderes de se comunicar com os mortos. As dores de cabeça e os outros problemas desapareceram.

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“Não sei o que ela fez. Foi muito estranho”, disse Marianne, recordando-se de como a clarividente “limpou” sua agência de uma presença fantasmagórica que nem ela nem sua equipe tinham visto, mas cuja existência todos haviam pressentido e temido.

Hege Sandtro Kruse, outra funcionária da agência de viagens, descreveu a experiência como “um pouco estranha, um pouco interessante e um pouco assustadora”. Mesmo assim, ela garante que funcionou: “Não sei o que era. Mas havia algo aqui, tenho certeza disso. Agora acabou. Sei que não sou uma maluca total”.

Os fantasmas, ou pelo menos a crença neles, existem há séculos, mas agora encontraram um séquito particularmente forte em países modernos amplamente seculares como a Noruega, lugares que estão na vanguarda do que já foi visto como o afastamento inexorável e científico da superstição e da religião na Europa.

Em geral, as igrejas daqui podem estar vazias e acreditar em Deus, de acordo com pesquisas de opinião, é algo que se encontra em declínio constante, mas a crença em fantasmas e espíritos, ou pelo menos o fascínio por eles, está aumentando. Até mesmo a família real da Noruega, que a lei exige que pertença à Igreja Evangélica Luterana, flerta com fantasmas e uma das princesas ensina as pessoas a falar com espíritos.

“Deus está desaparecendo, mas os espíritos e fantasmas preenchem a lacuna”, disse Roar Fotland, pastor metodista e professor assistente da Escola Norueguesa de Teologia, em Oslo. Ao invés de lentamente eliminar a religião, como Sigmund Freud, Karl Marx e outros teóricos previram, ele afirma que a modernidade apenas canalizou os sentimentos religiosos de forma inesperada.

“A crença em Deus, ou pelo menos no Deus cristão, está diminuindo, mas aumenta a crença em espíritos”, acrescentou, descrevendo isso como parte do ressurgimento geral da “religião pré-moderna”.

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Tom Hedalen, engenheiro de tráfego, ateu de carteirinha e presidente da Associação Humanista da Noruega, insiste que a religião está em seus estertores e que a crença em fantasmas por mentes modernas e racionais meramente reflete o sucesso de charlatões que usam o medo do povo.

A Associação Humanista, que fez uma campanha nacional com o lema “Não se deixe enganar”, “não acredita em Deus, em trolls ou em Papai Noel. No final, toda a religião vai desaparecer”, disse Hedalen.

Isso ainda pode estar longe. O apelo das histórias de fantasmas ajudou na popularidade inesperada de uma série de televisão chamada “O Poder dos Espíritos”, agora em sua décima temporada. O programa tem cerca de meio milhão de espectadores todo domingo, uma audiência enorme em um país de apenas 5,1 milhões de habitantes e mais do dobro do número de fiéis regulares na Noruega.

“Somos maiores do que a igreja norueguesa”, disse o apresentador do show, Tom Stromnaess. Ele disse que não acredita em fantasmas, como “criaturas com lençóis brancos e olhos negros”, mas, apesar de inicialmente muito cético sobre fenômenos paranormais, aceitou o fato de que existem forças que não podem ser vistas ou compreendidas.

“É difícil dizer que tudo isso é besteira. É real”, disse ele, contando que havia visitado muitas casas onde aconteciam coisas que “desafiam todas as leis da Física”.

Arild Romarheim, pastor luterano e professor de Teologia que se aposentou recentemente, descreveu o fato de que ateus e agnósticos bem-educados estejam convictos de que fantasmas existem como “o paradoxo da modernidade”, uma retomada das velhas crenças para saciar a sede humana inata por uma vida espiritual insatisfeita com o declínio da igreja.

A crença em fantasmas, ele disse, acabou ficando tão forte que até mesmo a Igreja Luterana, à qual a maioria dos noruegueses formalmente pertence, adotou a chamada “liturgia fantasma”, para ser usada por pregadores cujos paroquianos pedem ajuda para limpar casas assombradas.

Unn Bohm Tveito, também de Moss, se lembra de nunca ter acreditado ou sequer pensado em fantasmas até que começou a trabalhar como gerente no escritório de informação turística da cidade. Ela notava que os folhetos em alemão sempre eram exibidos com maior destaque, algo estranho, pois poucos turistas que visitam Moss falam alemão.

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Em 2013, ela mencionou o fato a outros membros da equipe, que disseram ter notado a mesma coisa. “Os fantasmas não foram a nossa primeira hipótese, mas decidimos que isso não poderia ser explicado de uma forma normal”, ela disse.

Segundo ela, uma vidente enviada pelo programa de fantasmas da televisão resolveu o mistério: um soldado alemão morto que tinha trabalhado no mesmo edifício durante a ocupação nazista da Noruega, entre 1940 e 1945, ainda andava pelas instalações e sempre bagunçava os folhetos.

“Podem chamar de fantasmas, espíritos ou qualquer outra coisa, mas eles existem”, disse Unn. E acrescentou que o alemão morto havia ido embora.

O Globo

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