Gays católicos dos EUA tentam mudar igreja

Gay e católico, John Freml não conseguiu se casar em sua igreja quando decidiu formalizar a relação de oito anos com seu parceiro Rick, em dezembro. Como não pretende abandonar sua fé nem mudar sua orientação sexual, ele decidiu tentar transformar o catolicismo. Na terça-feira ele desembarcou na Filadélfia com 10 peregrinos gays, lésbicas e transgêneros para participar do Encontro Mundial de Famílias, realizado com apoio do Vaticano.

Maior reunião de famílias católicas do mundo, o evento será encerrado hoje pelo papa Francisco, com uma missa que deve atrair 1 milhão de pessoas. A viagem do grupo foi patrocinada pela coalizão Equally Blessed (Igualmente Abençoados), que busca abrir espaço na igreja de Roma para a crescente diversidade das famílias americanas. Nos últimos dias, eles se dedicaram a participar das discussões oficiais do encontro, a maior delas com oradores que defendiam o modelo tradicional de casamento entre um homem e uma mulher. O único que tinha como tema a homossexualidade foi apresentado por um gay que defende o celibato.

“Foi desafiador e doloroso receber tantas mensagens negativas, mas tivemos respostas encorajadoras de muitas pessoas que nos procuraram depois das discussões para manifestar seu apoio”, disse Freml ao Estado na Igreja Metodista Unida. Exibindo a bandeira com as cores do arco-íris em sua fachada, o edifício sediou os workshops paralelos promovidos pela coalização Equally Blessed para discutir a relação entre diversidade sexual e catolicismo.

Freml está convencido de que os bispos católicos nos EUA estão do lado derrotado da guerra cultural que se desenrola no país. Em junho, a Suprema Corte americana legalizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo em todo o território americano e pesquisas indicam aceitação crescente da população a esse tipo de união. Levantamento divulgado pelo Pew Research há um mês mostrou que os católicos tendem a ser mais tolerantes que a população em geral em relação ao matrimônio entre pessoas do mesmo.

Os dados mostraram que 70% dos seguidores da religião consideram “aceitável” a coabitação romântica entre homossexuais. “Os católicos dos EUA são receptivos a uma variedade de arranjos familiares que frequentemente são vistos como não-tradicionais”, disse ao Estado a pesquisadora sênior do Pew Research Jessica Martinez. “Isso sugere que o papa Francisco encontrará um público católico aberto à discussão sobre como incluir todos os tipos de famílias na igreja.”

O desejo de dar visibilidade à diversidade sexual foi o que motivou Nicole Santamaria a ir ao Encontro Mundial das Famílias com os peregrinos do Equally Blessed. Nascida em El Salvador, ela se refugiou nos Estados Unidos há cinco meses, depois de ter sofrido agressões em razão de seu gênero e de seu ativismo. “Estou aqui para mostrar que é possível existir uma família com orientações sexuais diversas que também goza da comunhão com Deus.”

Intersexual (hermafrodita) e transexual, Nicole está acompanhada da mãe, que voou de El Salvador para participar do Encontro Mundial de Famílias. Criada como católica, ela se converteu à Igreja Anglicana em 2008, depois de quase ter perdido a vida em outro ataque. Na nova fé, que tem ritos bastante aos católicos, Nicole disse ter encontrado uma aceitação inexistente em sua igreja original, onde se sentia hostilizada.

Segundo ela, a condenação da diversidade sexual por líderes religiosos em países como El Salvador muitas vezes se traduz em ódio e justificativa para o assassinato de pessoas, principalmente mulheres transexuais.

Mesmo com a aparente tolerância do papa em relação aos gays, simbolizada na frase “quem sou eu para julgar?”, os ativistas dos EUA são céticos quanto a mudanças na doutrina da igreja. “Se ele adotasse aos temas de gênero e sexualidade as mesmas lentes que aplica à pobreza, ao capitalismo ou ao meio ambiente, haveria muito potencial para progresso. Mas não acredito que esse é o papa que fará isso”, avaliou Freml. Em sua opinião, Francisco poderá criar uma atmosfera mais aberta para o debate, pavimentando terreno para que um papa futuro realize mudanças substanciais.

Outro peregrino do Equally Blessed, Lui Francesco Matsuo é um transgênero que fez a transição da identidade feminina para a masculina. Nascido no Japão e criado em uma família budista, ele se converteu ao catolicismo e adotou o nome de batismo em homenagem a São Francisco de Assis. “Eu me preocupo com mensagens contraditórias que o papa está enviando, especialmente em relação à inclusão/exclusão de transgêneros”, disse Lui ao Estado.

Entre as declarações preocupantes, ele menciona as que estão no livro Papa Francisco: Essa Economia Mata, nas quais o pontífice critica a teoria de gênero (que desvincula a identidade de gênero do sexo feminino ou masculino) e a compara à manipulação genética, que não reconhece “a ordem da criação”. Na visão do pontífice, essa ordem é heterossexual: “Deus colocou o homem e a mulher no topo da criação e os entregou a Terra”.

Estadão

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