Resposta ao excesso de liberdade

Talvez o sentimento que leva à jihad seja o desejo de se libertar do peso da liberdade

Oque leva milhares de jovens muçulmanos europeus a desistir de suas vidas na França ou Alemanha, se alistar no Estado Islâmico e se dedicar ao objetivo improvável de estabelecer um califado com o apoio de propaganda digital?

Todos os esforços das sociedades ocidentais desde o 11 de Setembro para conter a ideologia jihadista em metástase que as ameaça fracassaram. Algumas organizações foram debilitadas, mas as ideias por trás delas, fincadas em uma violenta rejeição da modernidade — mas não de todas suas ferramentas, como prova o hábil uso da internet pelo EI — e em uma interpretação extrema e literal de certos ensinamentos do Islã sunita, mostraram ter um apelo irresistível.

O EI mostrou ter um amplo alcance, com recrutas chegando da Arábia Saudita à Rússia, da Líbia à Austrália. Ele claramente está tocando em algum sentimento profundo. Talvez esse sentimento seja um desejo de se libertar do peso da liberdade. As sociedades ocidentais vão cada vez mais longe no caminho de liberar as escolhas de seus cidadãos — livrando- os das amarras da tradição e da religião, permitindo que casem com quem quiserem e se divorciem tantas vezes quantas desejarem, morram quando quiserem e façam o que quiserem, de maneira geral. Há poucos limites morais remanescentes.

O Islã radical oferece salvação, ou ao menos propósito, na forma de uma vida com estritos padrões morais, hábitos diários determinados e rejeição inequívoca da liberdade. Ao tirar sua liberdade, o EI tira um peso psicológico de seus seguidores às margens da sociedade europeia. Mark Lilla, em resenha do romance “Submissão”, de Michel Houellebecq — cujo protagonista é um professor de literatura descrente que acaba escolhendo se converter ao Islã — fez a seguinte observação:

“As qualidades que Houellebecq projeta no Islã não são diferentes daquelas que a direita religiosa desde a Revolução Francesa sempre atribuiu ao cristianismo pré- moderno — famílias fortes, educação moral, ordem social, uma morte com sentido e, sobretudo, a vontade de persistir como uma cultura. Houellebecq vê a França à beira de uma crise desencadeada há dois séculos quando os europeus fizeram uma aposta com a História: a de que seriam cada vez mais felizes se estendessem a liberdade humana. Para ele, essa aposta foi perdida. E o continente está à deriva e suscetível à velha tentação de se submeter àqueles que dizem falar em nome de Deus”.

Na Europa de hoje, aqueles que falam mais ardentemente em nome de Deus são os muçulmanos. Alguns falaram corajosamente contra o EI; a maioria vê o movimento como uma traição a sua religião. Mas a tentativa jihadista de escapar da liberdade para a religiosidade que responde a tudo persiste, e não será derrotada tão cedo.

O Globo

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