Se os evangélicos podem modificar suas atitudes em relação ao divórcio, poderão fazer o mesmo com relação ao homossexualismo e ao casamento homossexual

Se os evangélicos pretendem seguir a Bíblia no sentido mais amplo de seguir Jesus, convido-os a exercer a ética cristã do amor ilimitado

No meio de toda a retórica violenta em torno da decisão da Suprema Corte de legalizar os casamentos de pessoas do mesmo sexo em todo o país, os evangélicos balançam entre o desafio e uma espécie de martírio.

“Está na hora de lançar uma luz sobre estes tempos sombrios”, disse Jim Daly, presidente do movimento Focus on the Family. O pregador Franklin Graham declarou que a Corte está “endossando o pecado” e que “as decisões de Deus não estão sujeitas a críticas nem a revisões por qualquer tribunal humano”.

Retomando argumentos de outros conservadores, Graham afirmou ainda que as Igrejas e outros que se opõem aos casamentos entre pessoas do mesmo sexo serão alvos de discriminação e perseguições. Segundo um comentarista da Fox, os direitos dos gays agora alardeiam a liberdade religiosa. E o reverendo Albert Mohler, do Southern Baptist Theological Seminary, advertiu que, “com esta decisão, a maioria colocou em risco todas as instituições religiosas, do ponto de vista legal, se esta instituição pretender defender suas convicções teológicas que limitam o casamento à união de um homem e de uma mulher”.

Os evangélicos gostam de enfatizar suas posições como bíblicas e portanto imutáveis. Eles querem que acreditemos que, antes disso, eles nunca se adequaram à mudança da postura da sociedade sobre sexualidade e casamento. Não é verdade.

O divórcio – e principalmente o divórcio seguido por um novo casamento – foi outrora uma questão semelhante, uma questão a respeito da qual os evangélicos não admitiam qualquer compromisso. Mas acabaram revendo sua pregação e se adequaram à mudança das circunstâncias históricas.

Quando eu era adolescente, educado na subcultura evangélica dos nos 60, o divórcio era terminantemente condenado pelos evangélicos. Jesus, afinal, foi muito claro a respeito: “E eu vos digo”, ele disse aos fariseus, “quem divorcia da esposa, salvo por imoralidade sexual, e casa com outra, comete adultério, e quem casa com a mulher que divorciou, comete adultério”.

Todos os que se divorciaram foram ostracizados pelos círculos evangélicos. Em algumas congregações, a pessoa passou a ser excluída, e o divórcio no mínimo foi marginalizado. Todo líder evangélico que divorciasse da esposa tinha de procurar outro emprego.
A cultura evangélica começou a mudar a partir de meados dos anos 70, quando a taxa de divórcios entre os evangélicos se aproximou da mesma taxa do restante da população. Alguns estudos sugeriram inclusive que a taxa de divórcios entre os evangélicos superava a média, embora esta afirmação fosse um tanto equivocada, principalmente porque era mais provável que os evangélicos se casassem.

As retumbantes denúncias de divórcios emanadas dos púlpitos evangélicos diminuíram. Ninguém apoiava totalmente o divórcio, mas ele foi se deixando aos poucos de constituir uma questão grave, porque os pastores acharam cada vez mais difícil julgar os membros de suas congregações – ou as suas próprias famílias.

Obrigados a reconhecer a realidade do divórcio perto de sua casa, os pastores reagiram com compaixão e não mais com condenação; as palavras de Jesus foram consideradas um ideal e não uma ordem. As mega igrejas forneceram grupos de apoio a divorciados, e então, posteriormente, para muitos, estes grupos passaram a funcionar como o equivalente evangélico dos clubes de solteiros.

Embora as atitudes evangélicas fossem mudando cada vez mais ao longo dos anos, é possível identificar o ano da verdadeira guinada com certa precisão: 1980.
Não muito tempo atrás, pesquisei as páginas de Christianity Today, a revista do evangelicalismo, o guia da religiosidade. As condenações do divórcio, que eram algo normal nos anos 70, cessaram quase totalmente depois de 1980.

Mais impressionante é o fato de que o movimento pelos “valores da família”, nascido em 1980, ignorou em grande parte o tema outrora crucial. Jerry Falwell e outros pregadores conservadores passaram a atacar o aborto, o feminismo e a homossexualidade, mas raramente mencionavam o divórcio.
O que aconteceu? Em resumo: Ronald Reagan. Quando os líderes da direita religiosa decidiram abraçar Reagan como o seu messias político, tiveram de engoli-lo a contragosto.

Não só Reagan era divorciado, como voltara a casar, numa clara violação do ensinamento bíblico.
Além disso, em 1969, quando governador da Califórnia, Reagan assinou a primeira lei da nação que isentava os litigantes nos processos de apresentar determinadas razões para o divórcio. Tendo decidido apoiar Reagan nas eleições de 1980, as denúncias evangélicas contra o divórcio praticamente cessaram.

Se os evangélicos podem modificar suas atitudes em relação ao divórcio, poderão fazer o mesmo com relação ao homossexualismo e ao casamento homossexual. Na realidade, suas posições poderão abrandar à medida que os LGBT evangélicos forem saindo dos seus armários e, como outrora os divorciados, fazer com que suas comunidades se defrontem com sua existência.

A censura é muito mais simples em termos abstratos do que cara a cara. Em várias ocasiões, em seu ministério, Jesus tratou individualmente com as pessoas, e demonstrou o princípio de que o amor é sempre maior do que a lei, que a aceitação é superior à condenação. Este é o poder radical – e a transformação – do evangelho.

Se Graham, Mohler e outros líderes evangélicos quiserem formular princípios bíblicos relacionados à sexualidade e ao casamento, devem focalizar o divórcio; Jesus foi muito mais claro a este respeito do que a respeito da homossexualidade, sobre a qual não disse absolutamente nada. Entretanto, se eles pretendem seguir a Bíblia no sentido mais amplo de seguir Jesus, convido-os a exercer a ética cristã do amor ilimitado. Se eles exigirem um texto como prova, permitam-me sugerir-lhes Mateus 7:1, no Sermão da montanha: “Não julgueis, para que não sejais julgados”.

Estadão

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