Bênção para casais gays divide opiniões entre evangélicos na França

A Igreja Protestante Unida da França, com cerca de 400.000 fieis, autorizou a benção para casais homossexuais. Outras comunidades evangélicas criticaram a decisão


Corinne Denis e Laurence Cerveaux trocam alianças como parte de sua cerimônia de casamento em Saint-Paul de la Reunion, durante o primeiro casamento gay na ilha francesa de La Reunion(Richard Bouhet/AFP/VEJA)

A prática da bênção a casais do mesmo sexo adotada pela principal igreja protestante da França passou a ser vista, no panorama religioso do país, tanto como um avanço simbólico e positivo por homossexuais, como “perturbador” por outras denominações evangélicas. A decisão foi tomada no domingo, em um sínodo nacional no qual a Igreja Protestante Unida da França (IPUF), que engloba luteranos e reformados, aprovou por ampla maioria – com 94 votos a favor e três contra – a possibilidade de abençoar esse tipo de união.

O texto tenta conciliar os que querem permitir o amparo dos casais homossexuais com aqueles que se opõem a outorgar esse gesto litúrgico, por isso dá aos pastores a última palavra. O casamento não é um sacramento para muitos protestantes, mas essa decisão abre a porta para que os casados no civil sejam abençoados nos templos. O debate, como reconheceu o presidente do conselho nacional da IPUF, o pastor Laurent Schlumberger, foi “acalorado”, mas desembocou na convicção de que essa abertura poderia representar “a palavra comum” de sua igreja.

Essa corrente protestante, que conta com 110.000 membros ativos entre seus cerca de 400.000 fiéis, começou a trabalhar sobre esta questão há 15 anos, mas acelerou as discussões após a aprovação, em maio de 2013, da lei que autorizou na França a união civil homossexual. Desde 2011, a Missão Popular Evangélica, uma igreja muito menor que a IPUF, era a única do país a dar aos casais homossexuais “um gesto litúrgico de amparo”. Esta nova aceitação, segundo Schlumberger, foi uma “questão pastoral, mais pragmática do que de doutrina”.

Para os LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais), este é “um passo simbólico” e “um avanço rumo a uma maior aceitação”, o que não exclui o fato de que é preciso “continuar com os avanços”. Sua importância, conforme explicou o porta-voz da associação, Nicolas Rividi, tem maior ou menor impacto segundo a fé de cada pessoa, mas a decisão, em sua opinião, “faz parte de um movimento global ao qual essa igreja acaba de entrar, e pode ser que outras façam o mesmo no futuro”.

Para o Conselho Nacional dos Evangélicos da França (CNEF), no entanto, a IPUF abriu a caixa de Pandora: “não há dúvida de que essa decisão marcará de forma negativa as relações dessa igreja com os evangélicos e complicará também as relações com outras igrejas”. O comunicado, publicado após as conclusões do sínodo, ressalta ainda que a resolução da IPUF foi feita com base em “escolhas contestáveis”, entre elas a de abençoar uma prática “condenada pela Bíblia”.

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